23.7.07

SEMANA NEGRA – NOTAS DO DIÁRIO II

Banda Desenhada Portuguesa em Gijón


Pediram-me para participar numa conversa sobre banda desenhada portuguesa contemporânea. Sentar-me-ia com Angel de La Calle no sofá da ‘Carpa A Quemaropa’, conversaríamos sobre o tema e eu apresentaria autores, edições e projectos aos presentes. O único problema poderia ser o facto de ninguém conhecer mais nada sobre o que se faz por cá em termos de banda desenhada com excepção de alguns trabalhos de José Carlos Fernandes.
Socorri-me dos livros e publicações que levei para distribuir por autores e críticos de bd espanhola (e que levei até Gijón com o prejuízo das minhas vértebras mas com a prontíssima contribuição da Bedeteca de Lisboa, da Bedeteca de Beja, do CNBDI e do Bd Jornal) e de um powerpoint manhoso cheio de imagens referentes à produção dos últimos anos e a coisa lá começou. A sala estava cheia, o que não é tanto mérito do tema ou da apresentadora, mas antes uma constatação comum a todas as actividades da Semana Negra. Houve exclamações de espanto pelo facto de termos duas Bedetecas em Portugal, para além de um centro de bd. Mais exclamações pela existência de um jornal dedicado ao tema. Até ali, quem ouvisse falar da cena portuguesa convencia-se dos maiores idílios bedéfilos... E eu, desmancha prazeres, lá tive de explicar que o mercado editorial é fraco, que se edita muita coisa com pouco interesse, que o Salão Lisboa foi à vida graças à incúria da Câmara Municipal de Lisboa e que esta mesma Câmara não tem tratado a Bedeteca com a atenção que mereceria um projecto tão bem arquitectado e com um trabalho tão meritório (houve apupos à CML, sim senhor!). E afinal, onde estavam a acontecer as coisas interessantes neste panorama, perguntaram-me? De onde vinham as imagens de um tal André Lemos, de uma tal Imprensa Canalha, de uma tal Susa Monteiro? Pois bem, vinham quase todas daquilo a que poderíamos chamar um mercado paralelo, onde se incluem fanzines, auto-edições e publicações que, embora enquadradas num âmbito institucional (é o caso da Bedeteca de Beja), viviam do trabalho de autores e editores que se moveriam naquele sentido com instituição ou sem ela (mas que, obviamente, com o enquadramento institucional podem fazer um trabalho mais reconhecido e divulgado, o que é de saudar). E as outras imagens, das capas de livros e de algumas pranchas? Vinham de dois ou três autores que vão publicando (caso de Miguel Rocha, muito apreciado pela assistência, para minha satisfação pessoal) e de uma série de livros que saíram na altura em que se publicavam com frequência autores portugueses (autores que desenvolviam – e continuam a desenvolver, embora agora não tenham onde publicar num plano mais ‘profissional’ – um trabalho próprio, explorando as suas ideias e conceitos ao mesmo tempo que criavam a sua própria voz e que não estavam a tentar fazer umas pranchas para serem o próximo sucesso instantâneo à imagem dos franco-belgas ou dos norte-americanos). Ou seja, a produtividade criativa a que creio assistir-se na banda desenhada portuguesa contemporânea, com todas as suas áreas e intervenções artísticas afins, não se reflecte na boa saúde do mercado editorial ou num acompanhamento muito atento por parte das instituições relativamente ao que se vai fazendo. Mas nem tudo são espinhos: se o mercado editorial continua, em termos gerais, a afundar-se por entre a falta de leitores e o esgotamento de séries e modelos que talvez já não tenham por onde continuar (ou que, muitas vezes, os leitores preferem comprar no original), os ‘subterrâneos’ estão em plena efervescência, editando, organizando exposições, juntando-se em cooperativas artísticas e editoriais, trocando experiências também com autores e criadores estrangeiros e publicando, dentro e fora de fronteiras, alheios às fracas vendas ou aos dramas da distribuição. Dir-me-ão que isso não chega para revitalizar o mercado... talvez não, mas que é daí que vêm as propostas com mais conteúdo, disso não tenho muitas dúvidas. E o entusiasmo de uma sala cheia a várias centenas de quilómetros de casa confirma-o, assim como as conversas mais pequenas que se seguiram, o interesse demonstrado por autores e editores (sim, editores!) relativamente a alguns trabalhos e a troca de contactos para projectos futuros. Se desta viagem resultar de facto o interesse de várias pessoas, algumas com responsabilidades editoriais, pelo que de melhor se vai fazendo por cá, tratarei de esquecer as dores nas costas e as horas infindáveis no comboio e pensarei em repetir a empreitada (mas talvez de avião...).

3 comentários:

Luís Filipe Silva disse...

Saudações por teres estado a defender e apresentar a BD portuguesa. Há uns anos também lá estive enquanto representante da FC portuguesa embora com participação mais discreta... fui só para ouvir :) O problema do avião é que vai só até Oviedo, e depois ainda há um trajecto de camioneta ou táxi. Até hoje o melhor trajecto sempre foi de carro, ou a partir de Portugal - cansativo, nove horas - ou a partir de Madrid, alugando - cerca de 3, 4 horas. Pois, é longe, e mesmo assim tão concorrido. O desinteresse português pela própria cultura é infelizmente patente e patético...

Sara Figueiredo Costa disse...

Não guio, o que me retringe bastante as opções. Mas doze horas no comboio para Burgos e mais umas três ou quatro no comboio para Gijón foram um bocado violentas... Ainda assim, valeu a pena.

paula-travelho disse...

Muito interessante o seu blog.
Parabéns.

Paula Travelho