13.11.06

LEITURAS: DIAS ELÉCTRICOS

Dias Eléctricos
VVAA
Má Criação, Lisboa, 2006



Por detrás das lâmpadas que nos iluminam as noites, e da parafernália de electrodomésticos sem os quais achamos que não é possível viver, esconde-se uma das invenções mais importantes da história moderna. E por detrás dessa revolução que foi a corrente eléctrica, escondem-se ainda memórias e algumas anedotas que são o reflexo do impacto, hoje já tão pouco perceptível, que o invento teve nas nossas vidas.

Luís Rainha assina os argumentos das oito histórias que compõem estes Dias Eléctricos. Os desenhos ficaram por conta de Jorge Mateus (que repete), Susana Carvalhinhos, Armando Lopes, Frederico Rogeiro, Daniel Lima, Tiago Albuquerque e João Fazenda. Não se percebe se foi o apoio da Rede Eléctrica Nacional foi o leitmotiv da obra, ou se o tema proporcionou o patrocínio, mas pouco importa.

Dias Eléctricos é, a espaços, uma reflexão sobre o modo como a electricidade interferiu nas nossas vidas, mas é sobretudo um exercício narrativo muito interessante no modo como parte de um tema aparentemente banal para criar pequenas ficções do quotidiano, aproveitando todo o potencial dos lugares-comuns e dos fait-divers do dia a dia (a história do apagão, que em 2000 deixou Portugal às escuras, e a imputabilidade do facto atribuída a uma cegonha, são disso bom exemplo).
Mais além desta primeira leitura, ainda superficial, podemos perceber outros sentidos com maior vocação universal. E aqui não é a história de um invento que encontramos, mas a memória que a partir dele se pode formar; por um lado, a memória que fomos aprendendo a moldar a partir dos livros de História ou das conversas dos mais velhos, e por outro, uma memória pessoal, no sentido de individual, pertencente a cada indivíduo e à sua própria ficção. É no cruzamento entre estes dois registos que se constroem as narrativas de Dias Eléctricos.

O resultado é heterogéneo, dada a diversidade de registos estilísticos dos autores-desenhadores, mas essa heterogeneidade, que poderia ser grave tendo em conta a distância que separa, por exemplo, o traço de Daniel Lima das vinhetas bem comportadas de Armando Lopes, não coloca em perigo a unidade do livro. O mérito é do(s) argumento(s), que pode(m) ser lido(s) como uma sequência de episódios seleccionados de uma mesma e gigantesca história, e também da escolha de Jorge Mateus para abrir e fechar o volume, com 'On' e 'Off', conferindo-lhe uma estrutura e analisando os diferentes episódios com um olhar assumidamente exterior, destacando os mitos (como o dos frigoríficos que teriam servido para esconder refugiados espanhóis da Guerra Civil, na história desenhada por Tiago Albuquerque) e também as mitomanias (como a do município lisboeta, que importou os candeeiros eléctricos fingindo ter verba para os sustentar, na história de Armando Lopes). Assim, aquilo que poderia ser um livro com várias narrativas em torno de um tema, assinadas por desenhadores diferentes (o que seria, já de si, meritório, tendo em conta a qualidade geral dos trabalhos apresentados e, do ponto de vista editorial, a falta que temos de antologias ou volumes colectivos que possam dar a conhecer o trabalho de vários autores de banda desenhada), acaba por ser uma história em episódios, contada a várias mãos e com registos gráficos muito adequados aos diferentes argumentos (no sentido em que complementam sentidos e dialogam de modo verdadeiramente simbiótico): veja-se o traço de Frederico Rogeiro, invocando a marca inconfundível de João Abel Manta para o relato cronologicamente situado no Estado Novo, convocando uma vez mais a memória histórica e a nossa visão dela para o centro da criação, ou o registo gráfico de Daniel Lima, ecoando um certo universo vintage de cartazes e velhos anúncios e assumindo um ritmo imposto pelos vários momentos narrativos, associados à transmissão radiofónica, não marcados enquanto vinhetas mas claramente separados, dentro de cada prancha. Veja-se também o trabalho de Tiago Albuquerque, explorando possibilidades na utilização das formas geométricas e das texturas padronizadas, e respondendo ao texto de Luís Rainha de um modo que confirma o interesse que já vinha despertando em publicações dispersas (pessoalmente conhecia apenas o seu contributo para o número um da Blazt e alguns cartazes e ilustrações soltos, mas a propósito deste texto descobri o blog do autor aqui e aproveito para recomendá-lo a quem quiser conhecer o seu trabalho).

Não deveria ser preciso referir este ponto, por demasiado óbvio, mas Dias Eléctricos é um bom exemplo de como um livro de banda desenhada que tem a História, ou determinado facto histórico, como motivo temático principal, não tem de ser um exercício pedagógico com o fito nos hipotéticos jovens leitores incapazes de digerirem verdadeiros livros de História, mas que alguém acredita estarem prontos a aceder aos segredos do conhecimento desde que ele lhes sejam apresentados 'aos quadradinhos'. Longe desse espírito que continua a gerar alguns livros no nosso panorama editorial, Dias Eléctricos conta um punhado de histórias que têm na base um tema que podemos encaixar na categoria dos temas históricos, mas essa é a única relação unívoca; as possibilidades narrativas, a reflexão sobre a memória e a diversidade de registos gráficos estão já num outro plano. E ainda bem.

5 comentários:

Luis Rainha disse...

Obrigado pelas generosas palavras, Sara.

Anónimo disse...

O link para o blogue do Luis não está correcto.

Sara Figueiredo Costa disse...

Luís, não foi exactamente generosidade, mas uma resposta ao que o livro me fez pensar. A generosidade é desejar que ele venda muito, ou, pelo menos, que seja lido por muita gente. E eu espero que sim.

Anonymous, o link estava, de facto, errado, mas não era para o blog do Luís, e sim para o do Tiago Albuquerque. Já está corrigido.

Sara

Geraldes Lino disse...

Olá Sara
Não tenho ainda conhecimento dessa obra "Dias Eléctricos". A sua crítica está muito boa em termos literários (como é usual), e excelente na capacidade de transmitir uma noção clara do conteúdo desse conjunto de peças de BD.
Onde é que está à venda?

Sara Figueiredo Costa disse...

Olá Geraldes Lino.
Eu encontrei-a na Fnac do Chiado, e já a vi na Bertrand, por isso já deve estar distribuída pelos sítios habituais.