26.5.08

CAPPUCCETTO ROSSO

A última edição do Salone Internazionale del Fumetto, em Nápoles, contou, como já tínhamos noticiado, com uma exposição de Richard Câmara e do seu Capuchinho Vermelho. Para o catálogo, tive o prazer de assinar um pequeno texto sobre O Capuchinho Vermelho, e a alucinação visual de o receber na volta do correio... em italiano!
Deixo disponível a versão portuguesa, claro, e aproveito para agradecer ao Richard o convite.



UM CAPUCHINHO PARA O FUTURO

O consenso é vasto: psicólogos, pedagogos ou parentes dedicados sabem, de há dois ou três séculos para cá, que os contos de fadas ajudam a potenciar novas dimensões no universo imaginativo das crianças, contribuindo de modo inegável para o seu crescimento. Não sendo a capacidade de crescer (no sentido de desenvolver-se e criar novas interpretações do mundo) um exclusivo da infância, será lícito incluir a matéria primordial dos contos de fadas no universo de elementos que, em função do tipo de leituras e da qualidade das digressões a que forem sujeitos, podem bem constituir objecto de reflexão e experimentação – e logo, de crescimento.

Da leitura de O Capuchinho Vermelho, de Richard Câmara, apreende-se desde logo essa característica. A narrativa que conhecemos, com maior ou maior variação, das histórias das avós é aqui duplamente transformada, sem que com isso se percam as suas linhas e significados essenciais: por um lado, com a fragmentação do enredo, através da simultaneidade com que se apresentam os diferentes pontos de vista (cada momento da história é ‘mostrado’ a partir do ‘olhar’ sobre cada uma das personagens: capuchinho, avó, lobo e caçador); por outro lado, com o desvio da linearidade da narrativa tradicional em direcção a uma interpretação alternativa, mas que ainda assim mantém os pontos essenciais do conto ‘original’, nunca arrasando com a sua estrutura.

Como todos os contos tradicionais, O Capuchinho Vermelho tem-se prestado a muitas adaptações, nem sempre ricas no que de novo acrescentam. No caso do trabalho de Richard Câmara, seria preferível falar em transformação – o traço espesso e de leitura forte, o vermelho como única cor para além do preto, sublinhando os elementos centrais da significação, a releitura de uma história universal a partir dos seus núcleos narrativos essenciais, criando uma outra história, onde a primeira se reconhece, mas à qual o humor e a inteligência da interpretação acrescentam um novo valor.

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